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OPINIÃO | Uma reflexão sobre Resiliência

abril 26th, 2021 · Sem comentários

Luiz Francisco Bueno

Por Luiz Francisco Bueno (*)

Caros(as) leitores(as), devido minha atuação também como professor, participo de “discussões acaloradas”, agora de forma virtual, sem a presença, – infelizmente -, dos colegas e alunos, regado a um bom Chopp!

Um tema, com grande “ibope”, adveio de uma publicação do jornal Estado de São Paulo sobre como a pandemia do Covid 19 colocou em evidência e quase que de forma mandatória as competências comportamentais, as chamadas soft skills, assim batizada por alguns “gurus digitais”.

Tal publicação se baseou em pesquisa de uma empresa de Recrutamento, bastante conhecida no mercado, que coloca a resiliência, adaptabilidade e flexibilidade como as 03 primeiras do ranking apresentado.

O termo resiliência é aplicado em diversas áreas do conhecimento: desde a ecologia, sociologia, economia, psicologia individual e organizacional, gestão da cadeia de fornecimento, gestão estratégica, gestão de riscos, gestão da engenharia da segurança, física, engenharia e aos sistemas de informação.

A American Psychological Association (APA) define RESILIÊNCIA como “o processo de adaptação a situações adversas, traumas, tragédias, ameaças ou principais fontes de stress”.

Em outras palavras, trata-se de nossa capacidade para identificar a situação-problema, planejar e executar as ações necessárias à recuperação do “equilíbrio social, psicológico e emocional”.

Parafraseando Bauman, Z. no seu clássico Liquid Modernity: a modernidade tornou fluidas as fronteiras entre a vida pessoal e a vida profissional, impondo aos indivíduos que trabalham nas organizações condições de adversidade implícitas ou explícitas, percebidas ou não pelo sujeito organizacional, que demandam a mobilização ou a criação de recursos para o seu enfrentamento.

Diante disso, também podemos entender como resiliência, os recursos de que dispõem os trabalhadores  para o enfrentamento das tensões e adversidade presentes não apenas em seu campo de trabalho, mas também em outros aspectos de suas vidas familiar, pessoal e afetiva.

Nesse sentido a resiliência, em última instancia, reflete a nossa capacidade de contínua reconstrução dos processos de adaptação (assimilação e acomodação, no conceito piagetiano) entre indivíduos e seus ambientes, considerando sempre o ecossistema constituído pela díade composta pelo ser humano e seu meio.

Assim, a resiliência não poderia ser entendida simplesmente como um resultado decorrente de traços de personalidade!

Nesse sentido, é mais lógico pensarmos em PROCESSOS RESILIENTES, do que simplesmente categorizar se uma pessoa é ou não RESILIENTE!

Dessa forma na medida que desenvolvemos processos resilientes podemos até afirmar que nossa saúde, particularmente a mental, e, via de consequência, nossa qualidade de vida no trabalho se torna no mínimo mais “robusta”!

Nas palavras de Dejours, C um dos principais autores sobre psicopatologia do trabalho:  o trabalho humano é capaz de gerar dois tipos distintos de sofrimento: o sofrimento patogênico, que aparece quando todas as margens de liberdade na transformação, gestão e aperfeiçoamento da organização do trabalho já foram utilizadas pelo indivíduo e  o sofrimento criativo que aumenta a resistência do sujeito ao risco de desestabilização psíquica e somática ou seja o trabalho funciona como mediador para a saúde. 

No nível psíquico, saúde não é sinônimo de ausência de angústia e “há pessoas que, embora angustiadas, encontram-se em perfeita saúde” (sic).

Mesmo “correndo o risco “de um reducionismo conceitual podemos dizer que resiliência adaptabilidade e flexibilidade estão intimamente interligadas como numa função matemática:  a adaptabilidade (capacidade para se adaptar a novas situações com soluções inovadores) a flexibilidade (capacidade de responder às perturbações/pressões com eficiência e eficácia) e resiliência são ao mesmo tempo variáveis independentes e dependentes, de forma dialética.

Para o mais puristas e darwinistas, a adaptabilidade seria uma característica ou comportamento natural, usado para tornar um organismo capaz de sobreviver em determinado habitat.

Em termos psicológicos e sociais será que seria tão natural? Deixo essa questão aberta de quem é ovo e quem é galinha!

Assim sendo, RESILIÊNCIA não é uma QUALIDADE INATA que está em nossos DNAs, ainda que possa haver uma tendência genética como sugerem alguns estudos.

Dessa forma, os PROCESSOS DE RESILIÊNCIA podem ser desenvolvidos ao longo da vida.

Resgato abaixo alguns pontos para que vocês, caros(as) leitores(as) reflitam sobre seus cotidianos empresarial, social e familiar, com a seguinte ressalva: não é um decálogo de   auto ajuda!

  1. Saúde: Identificar e reconhecer as situações de stress, bem como os impactos no seu corpo e em seus hábitos, a fim de modificá-los, se necessário for.
  2. Consciência de Suas Potencialidades e Limitações: O autoconhecimento é o primeiro passo para enfrentar as adversidades.
  3. Desafios Como Oportunidades de Aprendizagem: Na nossa vida (profissional e pessoal) sempre enfrentamos situações que nos abatem, porém, num PROCESSO DE RESILIÊNCIA, tais desafios, mesmo quando não atingidos, devem ser encarados como oportunidades para crescimento. A pergunta chave seria: o que aprendi com essa experiência?
  4. Use Seus Pontos Fortes: Identifique seus pontos fortes. Reflita sobre quando os usou e como eles lhe permitiram alcançar o sucesso. Utilize esses talentos para seu benefício: em momentos difíceis ou estressantes, a tendência é focar em nossas fraquezas, levando-nos a uma ESPIRAL NEGATIVA. Veja no que você é bom e se destaca, conscientize-se sobre como essas habilidades podem ajudá-lo em uma situação específica e use-as.
  5. Pensamentos Negativos: Estamos programados para perceber as situações negativas. É por essa razão que, mais rapidamente, tendemos a nos estressar com o pior cenário e entrar numa espiral descendente de emoções. Sair dessa forma negativa de PENSAR é uma habilidade importante a ser desenvolvida. Se você listar os piores cenários que ocupam sua mente e confirmar ou refutar as PREMISSAS consideradas, conseguirá examiná-los de forma mais racional. Isso o ajudará a reduzir os cenários negativos e formular as alternativas mais adequadas de ação.
  6. Consciência Situacional: Procure tomar consciência do que ocorre ao seu redor. Relacione se com outras pessoas, além do seu círculo mais próximo, no trabalho e na vida social. Compreenda melhor o que acontece no cenário sócio, político e econômico e analise os reflexos desses eventos sobre a sua vida profissional e pessoal. Fazer isso lhe permitirá melhor identificar os sinais de alerta e, portanto, lhe dará mais tempo para planejar-se.
  7. Assuma o Controle: Faça uma lista das variáveis que você consegue ou não controlar. Isso o ajudará a obter uma perspectiva mais ampla. Você não terá controle sobre situações específicas, então, por que se preocupar com elas? Concentre-se no que você pode administrar e defina ações positivas nesse sentido. Isso lhe dará clareza e propósito.
  8. Relacionamentos Positivos e Compreensivos: Invista tempo para construir RELAÇÕES positivas e de reciprocidade (criar valor compartilhado), vitalidade (energia) e apreciação positiva (respeito, compaixão e confiança no outro). Em situações de stress, profissionais ou pessoais, você poderá contar com essas RELAÇÕES para obter ajuda. Saia do seu espaço mental e relacione-se ativamente com PESSOAS em que confia e valoriza. Peça conselhos, apoio e divirta-se com elas. Solidão e isolamento afetarão negativamente a sua RESILIÊNCIA.
  9. Flexibilidade nas Mudanças: Mesmo com disciplina e tenacidade, ao buscar seus objetivos, os RESILIENTES mostram flexibilidade para adaptar seus planos e disposição para avaliar alternativas, sem se fixar, de forma obsessiva, em uma única dentre elas.
  10. Processo Continuo: Nossos níveis pessoais de RESILIÊNCIA flutuam ao longo de nossas vidas, em função das circunstâncias, do ambiente em que vivemos e de nossas próprias mudanças. Entretanto, dispor de um conjunto de ferramentas que nos ajudem nesses períodos de renovação e de recuperação nos propicia a base necessária para melhorar a nossa saúde, bem-estar, felicidade e, finalmente, RESILIÊNCIA.

Finalizo esse artigo com 02 dicas de para um “ócio criativo” sobre RESILIÊNCIA o livro de Frankl, V. E.:  Em busca do sentido: um psicólogo no campo de concentração e o filme “A Vida é Bela” do diretor Benigni, R.

“O tempo muito me ensinou: ensinou a amar a vida, não desistir de lutar, renascer na derrota, renunciar às palavras e pensamentos negativos, acreditar nos valores humanos, e a ser otimista. Aprendi que mais vale tentar do que recuar…Antes acreditar do que duvidar, que o que vale na vida, não é o ponto de partida e sim a nossa caminhada”. (Cora Coralina, poetisa)

*Graduado em Psicologia (USP), Mestre pela UFSC, Consultor de Recursos Humanos e Professor no IPECONT.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do BlogdoMadeira.

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Tags: Colaboradores · Opinião

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