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Opinião | Contemporaneidade

junho 18th, 2021 · 3 Comentários

Foto: Gabriel Faria

Por Alexandre Braga (*)

O álbum “ Cabeça Dinossauro” do Titãs é um dos discos importantes do rock nacional. Arnaldo Antunes (que além de músico é um grande escritor) foi o autor de várias letras, inclusive da canção “ O Que”.

Meu irmão conta que ganhou esse disco em um amigo-oculto na escola e uma professora, inserida no pensamento social de sua época, escandalizou com algumas letras. Surpresa, ela escreveu a letra da canção “O Que” no quadro, para os alunos refletirem se a mesma teria algum sentido. Esse exemplo nos mostra uma música que se apresentava fora dos padrões do seu tempo.

O fato de questionar o valor artístico da letra, além de ter sido um choque para a geração dessa professora, mostra que algumas manifestações artísticas são mal compreendidas por seus contemporâneos.

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Pra ouvir enquanto lê:

Na história da música clássica também houve reações parecidas como a descrita acima. Músicas que, hoje tidas como verdadeiras obras de arte, causaram escândalo, incompreensão ou descaso em sua época. 

Beethoven, embora inovador por incluir vozes em uma sinfonia (a genial  Nona Sinfonia), causou mais alvoroço com a N.3, ou “Heróica”, um marco na história desse gênero.

Sua longa duração (cerca de 50 minutos) trouxe uma nova perspectiva aos ouvintes em relação às sinfonias compostas por seus  predecessores e praticamente contemporâneos Haydn e Mozart, que raramente passavam de meia hora.  Música colossal o tempo todo, enérgica, agitada, emocional; ela retrata os ideais e as frustrações de uma sociedade.

A historinha dela é famosa: Beethoven dedicou a composição à Napoleão, pois entendia que ele seria o “libertador” da Europa, e assumindo os ideais igualitários da revolução francesa se tornaria um grande líder humanista.

Porém, quando Napoleão se fez coroar imperador, zombando aos olhos de Beethoven dos ideais da Revolução Francesa, ele rasurou imediatamente a dedicatória: ”Agora ele irá se tornar um tirano”, teria declarado. O título da Sinfonia foi alterado, seguindo na sua impressão: Sinfonia Heroica, composta para celebrar a memória de um grande homem.

Beethoven também escreve um segundo movimento incomum, uma intensa e impactante Marcha Fúnebre. Claro que diante da força dessa música, o público reagiu chocado à sua primeira apresentação, e não foram poucas as críticas que o mestre de Bonn recebeu!

Alguns estudiosos atribuem à Heroica a entrada da música no Romantismo.

Se com a Heroica a música entrou no Romantismo, com o Prélude à l’après midi d’un faune (1895) de Debussy a música entra no modernismo. Ela flui fora dos padrões convencionais acadêmicos; a partir da entrada flutuante da flauta, a música corre como um rio, com pinceladas sonoras e um cromatismo que sugere o fim do tonalismo. O compositor Gordon Jacob esteve presente na primeira audição dessa obra na Inglaterra e nos deixou esse relato: “depois dos últimos compassos sonolentos e brilhantes, houve um silêncio total na plateia, que estava simplesmente perplexa demais para reagir de qualquer outra forma”.

Já a estreia do Bolero de Ravel tanto surpreendeu o público que, segundo relatos, uma senhora teria gritado “ Esse compositor é louco”.

Situação parecida com a que ocorreu em 1727 quando a hoje considerada um pilar da arte ocidental, Paixão Segundo São Matheus de Bach, foi apresentada em Leipzig: uma senhora da congregação se escandalizou com a música, dizendo que era operística por demais; e nessa época associar música sacra à ópera era uma ofensa!

Mas a obra que causou mais impacto na sua estreia em toda história da música foi A Sagração da Primavera de Stravinsky, no Teatro Champs-Elysèes de Paris, em 29 de maio de 1913. Música revolucionária, ritmo brutal e primitivo, sobreposição harmônica, orquestra gigantesca, balé ultrajante. A coreografia de Nijinsky incitou vaias e insultos do público, transformando o auditório em um verdadeiro “campo de batalha” a partir da entrada do balé. O barulho era tamanho que impedia os bailarinos de ouvirem a música. É música furiosa, ancestral… fúria que, aliada aos passos de dança inspirados na mitologia russa pagã, tomou conta do público.

Assim a música, enquanto manifestação artística, permite essa compreensão ( ou falta de ) do público. Através disso, grandes obras passam pelo filtro do tempo sobrepujando as reações e o julgamento de seus contemporâneos…

(*) Músico varginhense, flautista da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais (OFMG).

Tags: Colaboradores

3 Respostas Até Agora ↓

  • 1 Larissa Dias // jul 27, 2021 at 6:40 AM

    Ah, como eu gosto destas músicas que passam pela barreira do normal e nos colocam em uma esfera cheia de surpresas! Eu não sabia a história da Heroica de Beethoven! Eu amo como esses compositores colocam a paixão e depois a retiram e a transferem e pronto! A vida é assim, ela anda e sempre mudamos de ideia!
    E se a arte não for remexer tudo internamente, eu sinceramente não curto muito! Toda vez que você tocava uma polca eu queria dançar, mas não dava porque eu estava assistindo a live! Esses dias recebi uma música do Bando Celta, “Polca do Banco”. Na hora fui dançar e ela me lembrava muito as polcas que ouvi você tocar. E claro que fui dançar porque ela mexeu com algo dentro de mim! Acho que a música que “sacode” nosso “velho cansado interno” é uma dádiva!

  • 2 Eduardo Ottoni // jun 19, 2021 at 2:52 PM

    Relato e considerações muito importantes e objetivos. Li, reli e ouvi… muito grato professor Alexandre Braga ( nosso conterrâneo), por suas analisadas considerações e nos envaidece com suas apresentações junto com a Professora Elvira …

  • 3 Flavio Caldonazzo Castro // jun 18, 2021 at 8:48 PM

    Novamente reforço minha admiração pelo músico e escritor Alexandre Braga. Como sempre, o mais sucinto permitido pelo tema, e o mais abrangente possível! Meu agradecimento ao blog do Madeira por nos trazer estas e outras ótimas informações. Depois de já quatro ou cinco crônicas publucadas pelo flautista da excelente Orquestra filarmônica de Minas Gerais, já é o caso de afirmar que, por aqui, Alexandre já foi efetivado no blog das Madeiras !

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