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Opinião | Violências, feminismo e feminino

dezembro 8th, 2020 · 2 Comentários

Por Janilton Gabriel de Souza (*)

Ao longo de alguns meses ausentei-me desta coluna, mas a reflexão não saiu da pena ou da ponta dos dedos para ser mais tecnológico e adequado a este tempo. Passaram-se meses em que o tema da violência tem tomado a cena, especialmente a violência contra a mulher. Minha sensação foi de um loop ou uma repetição da temática.

Quando isso acontece em um tratamento psicanalítico, o paciente repete os mesmos conteúdos durante um longo processo. Freud descreve que essa repetição é a sua forma de se lembrar e de elaborar aquilo que foi esquecido. Quando aborda o assunto, ainda que o paciente possa acrescer ou retirar um ponto, isso é o permite a alteração na sua narrativa. Entretanto, esse é um recorte do funcionamento em uma clínica e ele talvez não produza o mesmo efeito na esfera social, mas isso deve provocar o questionamento sobre o funcionamento da sociedade em que se habita.

Os últimos meses foram difíceis por conta da pandemia e pelo aumento da violência, especialmente contra a mulher. Em novembro, houve grande repercussão sobre o caso da modelo Mari Ferrer, amplamente atacada pelo advogado de defesa do réu. Ato na tentativa de culpabilizá-la por despertar o desejo, esquecendo-se ou tentando fazer ser anulada a responsabilidade do seu cliente. A responsabilidade, aqui, no sentido da resposta que o sujeito dá a isso.

Não é a primeira vez que algo assim acontece, na verdade isso ocorre todos os dias em todas as cenas sociais. Nosso colega, o psicanalista italiano Contardo Calligaris, vem dedicando-se ao tema e o apresenta em seu livro “Coisa de menina?: Uma conversa sobre gênero, sexualidade, maternidade e feminismo”, o qual escreve juntamente com Maria Homem (publicado pela Papirus). A cultura ocidental – desde a Grega Antiga, antes do Judeo-Cristianismo, mas piorando a partir desse último – é uma cultura não apenas machista, mas misógina, ou seja, nutre ódio pelas mulheres. Segundo os autores, “a misoginia entra na cultura ocidental por duas grandes figuras: Pandora, na mitologia grega, e depois Eva. Nossa cultura é construída, então, em cima da ideia de que a mulher é a representante do mal (ou a amiga do demônio)”. Por quê? Talvez porque as mulheres encarnem com mais vivacidade o desejo. Esse desejo que os homens se esforçam em mantê-lo mortificado. Quando o homem está diante de uma mulher e as suas infinitas demandas, vê-se em risco da perda do seu paraíso paralisado. Há uma coincidência entre a estrutura do paraíso cristão e o masculino, a calmaria no céu e a ausência de desejos.

Contardo Calligaris descreve que os grandes teóricos cristãos foram sujeitos adoecidos, que construíram dogmas visando silenciar o desejo feminino (vale lembrar que todas as religiões ocidentais foram feitas apenas por homens). Soma-se a isso o efeito de grupo, presente em todo tipo de religião e tem-se um ódio reverberado por séculos. Força de um discurso de segregação, que transcende as aparências biológicas, ou seja, não é exclusivo de homens, referindo aqui a alguém nessa posição subjetiva, podendo ser alguém do sexo feminino, inclusive. Afinal, como nos aponta o psicanalista francês Jacques Lacan, ao propor a tábua da sexuação, não é o biológico o marcador do que é um homem ou uma mulher, mas sua posição subjetiva.

A mulher não existe enquanto uma categoria universal, apenas no seu singular, no uma a uma. Cada mulher precisa se fazer, se inventar. Daí um universo vivo, rico e singular, bem distinto do masculino, que cria categorias e insere uniformes no mundo. Essa categorização é a cegueira e a surdez da convivência com o outro. Fugir do movimento categórico não é fácil, tanto que ele pode se fazer presente em alguns grupos feministas. Alguns grupos produzem efeitos parecidos com aquilo que tentam combater, pois a formação deles normalmente é feita com base na identificação, seja com o líder e/ou um ideal, como nos lembra Freud (1920) em “Psicologia das Massas e Análise do Eu”. Como fazer isso? Talvez devesse ser a pergunta guia da mobilização. O movimento feminismo foi e é importante, outrossim, que seja um movimento, não se fechando nas respostas, pois isso pode ser perigoso: há o risco de reproduzir a mesma exclusão. A dificuldade em jogo é acolher a diferença e defender seu direito de voz em igualdade.

A sociedade carece de mais acolhimento da variedade das experiências, o que significa dizer mais espaços onde o desejo possa habitar. Sem lugar ao desejo, a violência impera, pois esse é o esforço para padronizar, tingindo o mundo em tons cinza, na pobreza de uma vida sem desejo.

Recentemente, abri uma conta em um outro banco e recebi um cartão de crédito lindo, colorido, com a descrição “cartão mulher”, fiquei muito animado com o presente e mostrei-o a minha namorada dizendo-lhe: descobriram minha posição feminina e que sorte a minha, pois ganhei um cartão colorido, diferente daqueles tons pálidos destinado aos homens. O feminino é e sempre deve ser um movimento, de todos, para todos e não todas.

(*) Psicólogo, Psicanalista, Educador e Pesquisador. Mestre em Psicologia (UFSJ).  Especialista em Psicanálise. Coordenador da Pós-Graduação em Psicanálise do Unis-MG e docente da graduação de Psicologia. Coordena o Núcleo de Psicanálise Interfaces. Escreve, mensalmente, no Jornal Folha de Varginha e Blog do Madeira. Editor do site Janilton Psicólogo

Tags: Colaboradores · Educação

2 Respostas Até Agora ↓

  • 1 Al Ass Rib // dez 9, 2020 at 9:18 AM

    Parabéns, excelente opinião!!!
    Desculpem não ter colocado meu nome verdadeiro, no meu país é crime elogiar qualquer assunto relacionado a mulheres.

  • 2 Moisés (Enermax) // dez 9, 2020 at 8:05 AM

    Mais uma obra atemporal, do probo e sapiente Janilton Gabriel.
    Gostaria ainda de aproveitar o espaço, e desde já, externar os mais sinceros votos de boas festas a você e toda sua família querido mestre.

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