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Poligamia: possível e seu impossível

setembro 30th, 2019 · Sem comentários


Ao ler esse título é provável que você esboce três possíveis sensações: 1) Achará absurdo e remeterá seu conteúdo a uma série de julgamentos e não seguirá na leitura; 2) Continuará tomado pela curiosidade e/ou pelo desejo de saber as razões de um escrito com tal título; ou o mais provável, 3) Lerá para extrair uma frase para discordar ou atacar o que “não foi dito”. Nessa terceira hipótese, você poderá pinçar o que foi escrito do contexto e utilizar isso para validar seu discurso.

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Se você ousou até esta linha então você foi trazido, provavelmente, pelas duas últimas hipóteses. O que isso tem a ver com poligamia? Certamente, quem se deteve no título, talvez tenha o feito por receio de deparar-se com uma ideia diferente e que poderia representar uma ameaça para o investimento que escolheu fazer, por exemplo, em um casamento com seu par. Há quem diga que, quando for se casar, nunca mais poderá ter relacionamentos amorosos que não sejam com seu par. Para as pessoas que defendem isso, dois possíveis desfechos: Continuarão depois de um tempo estes relacionamentos extraconjugais ou nunca se casarão, estando sempre renovando-se em novas promessas e finalizando, assim, na iminência de um desfecho matrimonial. 

Segundo o IBGE, há em 2017 uma diminuição no número de casamentos no Brasil, 2,3% em relação a 2016, incide em queda apesar do aumento de 10% nas uniões homoafetivas, que representam 0,5% do total. No Amazonas, por exemplo, além disso é perceptível o aumento, também, dos divórcios. Em linhas gerais, as pessoas estão se casando muito menos e se divorciando muito mais e, na maioria das vezes, com o lapso temporal de convivência cada vez menor. 

Isso não é efeito de relações, exclusivamente, amorosas. As pessoas cada vez mais sentem dificuldades de fazerem “casamentos”, terem certas ancoragens de satisfação, justamente porque nossa sociedade capitalista apresenta inumeráveis outras opções a serem consumidas. Para que se casar com uma mulher ou homem se pode-se ter várias possibilidades de prazer? Para uns funciona assim, apesar de algumas delas nunca descartarem a ideia de um relacionamento de exclusividade. Essa é, na verdade, mais uma das opções que elas, também, se propõem a experimentar. Por outro lado, quem condena essas vivências, normalmente, vive com infelicidade a escolha que se obrigou, em alguns casos, a fazer. Há muitos casamentos feitos a partir de uma cobrança sustentada na promessa de felicidade e de completude a partir de um modelo socialmente aceito. Nesses casos, condenar as multiplicidades de escolhas amorosas pode ser uma forma de se proteger daquilo que para ser sustentado lhe causa mais sacrifícios do que prazer. 

O ser humano é e sempre foi poligâmico. Freud, em 1905, escreve isso em um conjunto de ensaios, denominados de “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”. Neste texto, ele propõe um jogo de sentido para o conceito de pulsão. Vale lembrar que, em alemão, Freud usa o termo trieb, o qual tem o significado de instinto e de pulsão. Porém, é esse jogo que ele convida o leitor a suportar e acompanhar as múltiplas construções em torno da sexualidade, a qual possui uma vasta gama de apresentações e satisfações. Este caminho franqueado por Freud leva-o a constatar algo que será a  originalidade de seu pensamento: o humano não possuí instinto visto que as pessoas transam por satisfação e não pela reprodução. É por isso que a ideia monogâmica não é possível ao ser humano. Não se defende o fim da monogamia enquanto forma de relação, mas da ideia neurótica e sintomática de as pessoas serem felizes para sempre com uma só coisa. Uma coisa e não pessoa. É possível um casamento monogâmico quando os pares mantêm fiéis aos seus prazeres, que eles coabitam e são vividos a cada tempo. Ou seja, só quando se tem essa poligamia de investimentos, como no trabalho, na leitura, na corrida entre outros, é possível admitir, entre os vários, um que pode também ser a causa do seu desejo. 

Marina Colasanti, em uma palestra que participei, disse que o casamento dela só era bom como era no namoro, porque ambos tinham investimentos vários, viajavam a trabalho e faziam coisas sozinhos. Por isso, sempre foi uma explosão quando estavam juntos, pois tinham o que contar. Talvez contar ao outro permita a eles fazerem o desejo ser reconhecido. Desejo, isso que os faz se colocarem em movimento. Entre um desejo e outro, pode advir mais um, o de estar junto com o outro. Em outras palavras, o parceiro é mais um dos objetos dos quais lhe é possível um prazer. 

O casamento deveria ser o reencontro disso que causa e que dá vontade de voltar de novo. Um reconhecimento simbólico desse objeto causa de nosso desejo, que entre outros, nos dá prazeres vários: da conversa, do sexo, da risada, do cuidado, do carinho. Volta-se porque o outro nutre essa magia, de sempre parecer novo e familiar ao mesmo tempo. E esse fazer só o é quando ele investe e obtém prazer em outras coisas na vida. Neste caso, Nany People é sábia ao dizer em seu livro que o amor é matemática e o sexo é química. Segundo ela, às vezes, a gente não está a fim de fazer contas. Fazer as contas é sempre chegar a um único resultado, como muitos neuróticos fazem: ou casam, ou vão fazer um mestrado ou, como dizem, compram uma bicicleta. Deve-se contar um a um, mas nunca transformar o um a um em apenas Um, inteiro e absoluto. Se isso acontecer, você terá feito um casamento de múltiplos sacrifícios em vez de vários investimentos (com o parceiro, sua profissão, seu hobby predileto e até seu prazer de não fazer nada de vez em quando). 

Voltando as nossas hipóteses de sua leitura, se sua direção está assentada na ideia de isso ou aquilo, talvez você escreva ou comente sobre o absurdo deste artigo, afinal para você é melhor crer que você se contenta com um único prazer. Receio que os sacrifícios dessa fantasia sejam tantos, que é preciso “culpar” e odiar os que sinalizam essa multiplicidade. Se estiver nessa série de investimentos, você pode dizer, “dá muito trabalho” e que você prefere essa ilusão do que esse trabalhão. Há que se respeitar isso, cada um tem o prazer que está disposto a pagar. Para quem está aberto ao desejo, poligamia é uma condição de vida. Esses recriam seu casamento amoroso a cada dia, para ele se manter interessante e vivo. Aos que apostam na fantasia de que só desejam uma coisa ou outra restará a vigilância do outro e um sintoma valorizado socialmente, o ciúme, que nada mais é do que uma manifestação de ódio ou a relação de indiferença. Digas qual o nível de poligamia que você consegue admitir em você, que direi se seu casamento é poligâmico ou monogâmico. 

Tags: Opinião

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