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Varginha 1883: escravos, jabuticabas e 300 casas

maio 24th, 2019 · 4 Comentários

A Folha de Varginha publicou texto sobre o Almanak Sul-Mineiro, edição de 1874, digitalizada pela Fundação Cultural do Município de Varginha. Redigido por Bernardo Saturnino da Veiga, traz informações corretas sobre os primórdios da cidade.

Nesta edição, publicamos texto sobre a segunda edição do Almanak, de 1883, um ano depois da “freguesia” ser elevada a cidade. A publicação informa que, segundo o recenseamento feito em 1º de agosto de 1873, Varginha tinha população de 7.195 “almas”. A cidade integrava a comarca de Três Pontas, tendo dois distritos: Espírito Santo da Varginha e Carmo da Cachoeira.

O “fôro civil foi creado” em 17 de dezembro de 1882. “No acto da instalação houve enthusiastico festejo, reinando geral alegria, e no dia seguinte, 18, reunio-se pela primeira vez a camara municipal, sendo eleito presidente dela o cidadão Matheus Tavares da Silva e vice-presidente o tenente José Maximiano Baptista”. Foram os primeiros prefeito e vice-prefeito de Varginha.

A cidade possuía 5 igrejas, mais de 300 casas (“das quais 8 ou 9 são de sobrado”), espalhadas por muitas ruas e 6 praças.

A cadeia era construída de pedra com duas enxovias (celas no térreo) e salas no pavimento superior para as sessões do júri, audiências etc.

Bernardino cita alguns homens que conduziram o desenvolvimento da recém-criada cidade. João Gonzaga Branquinho liderou a construção da cadeia. O fazendeiro Domingos Teixeira de Carvalho doou recursos para a construção de uma casa para “instrucção publica”, onde também eram feitas “representações teatraes”. O jornalista não cita a localização da casa de instrução, mas dá a entender ser ao lado da Igreja do Mártir São Sebastião.

Havia uma escola pública para o sexo masculino, com 50 alunos matriculados e “frequencia superior a 30”. A escola para alunas tinha 40 estudantes matriculadas e 30 frequentando as aulas.

Leia a primeira matéria sobre o Almanak Sul Mineiro aqui.

A população bebia água de cisternas, presentes em praticamente todas as casas.

Em 1873 uma epidemia de varíola matou mais de 30 pessoas. Foi a única participação financeira dos cofres públicos na última década, a soma de 300$. “Entretanto não são em pequeno numero as obras necessárias reclamadas pelo publico, e que bem merecião aquelles auxílios :- entre ellas lembramos a construção de duas pontes, ambas sobre o rio Verde, sendo uma na estrada da Campanha, a 1/2 legua da povoação, onde os passageiros são forçados a recorrer a uma barca, e outra, a 2 leguas, na estrada para a Mutuca”.

Bernardino descreve o Rio Verde: “tem, termo médio, 30 a 40 metros de largura e mais de 2 de profundidade no tempo secco, pois nunca dá váo, tendo muito peixe, desde os pequenos lambarys, mandys, papa-terras, surubys, etc., até o grande e apreciado dourado, que se vende por 2$ a 5$”.
Sobre a agricultura e escravagismo: “Cultiva-se os gêneros alimentícios mais comuns: café, fumo e algodão para consumo, sendo, porém, a canna a cultura mais usada. Poucos são os fazendeiros na freguesia que possuem mais de 40 escravos”.

O desenvolvimento da cidade: “E´ notável o aumento que tem tido a cidade da Varginha nestes 10 annos últimos, em que têm sido construidas mais de 50 casas. Encontra-se com difficuldade casas para alugar, cobrando-se por algumas 200$ por anno :- ainda ha, porém, grandes espaços desoccupados nas terras que constituem o patrimonio”.

Matavam-se uma ou duas cabeças de gado por semana, “por ser abundante a carne de porco, geralmente usada. Um carneiro custa 3$, os frangos 240 e 280 rs., ovos 160 a 240 a duzia, a sacca de sal 4$”. Para se ter ideia, hoje em dia são 350 abates de cabeças de gado por semana no matadouro de Varginha. Isso sem considerar que grande parte de população compra carne embalada, nos supermercados (Friboi, Swift, Seara etc.).

Remuneração: “E´ de 3$ a 4$ diarios o salario dos pedreiros e carpinteiros bons, ganhando os ordinarios 2$. Os trabalhadores de roça ganhão 640 rs. Por dia e em tempo de capinas, como o trabalho aumenta, elevão sua diaria a 1$”.

“São tambem em quantidade consideravel as frutas, taes como jaboticabas ‘Sabards’, laranjas, mangas, pecegos, marmellos, nozes, etc.,-mas nenhuma delas é exportada”.

Festas: “Muitas são as festividades realizadas todos os anos na Varginha. Durante a Semana Santa solemnisa-se ali, desde muitos anos, diversos mysterios da Paixão, com muita decencia e grande concurrencia de fieis. Além dessas, as festividades do Espirito Santo, S. Sebastião, Santo Antonio e Corpo de Deus não são ali esquecidas”.

Os correios passavam de 4 em 4 dias. Era a linha de Campanha para Três Pontas, “trazendo toda a correspondência da corte, Ouro Preto, etc.”.

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4 Respostas Até Agora ↓

  • 1 Flávio Mardi // jul 20, 2017 at 9:19 AM

    Muito massa, jaboticabas sabards, o povo era elegante…

  • 2 Mario Caldonazzo de Castro // jul 18, 2017 at 7:21 PM

    Olha o que tá no texto Madeira, se pensaram em brincar foi de mal gosto para uma matéria séria:

    ” Isso sem considerar que grande parte de população compra carne embalada, nos supermercados (Friboi, Swift, Seara etc.).”

    NOTA DO BLOG: não foi brincadeira, mas uma comparação no consumo de carne.

  • 3 Heriberto Brito de Oliveira // jul 18, 2017 at 7:03 PM

    Todas as edições estão disponíveis online! Biblioteca Nacional, o primeiro a ocupar a cadeira da presidência foi o “Varginhense” com maior idade, no caso Joaquim António da Silva (Alferes), que presidiu à mesa que elegeu os cargos daquela da primeira “gestão”.
    Já venho pedindo de longa data que coloquem em uma urna/caixa de vidro o livro aberto na ata de criação do município, no saguão ou no andar superior da câmara !
    Tenho uma cópia !

  • 4 Antonio Belo Sobrinho // jul 18, 2017 at 6:36 PM

    Emocionante o texto! Sem palavras…

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