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Pé-grande ou pequeno?

dezembro 9th, 2018 · Sem comentários

Por Janilton Gabriel de Souza

Onde fatos e mitos têm caminhos marcados? O que eles dizem de nós? Não é de hoje que nossa sociedade vivencia o rumor do chamado Pé-grande. Levantei algumas hipóteses para esse mito perpetuar no imaginário humano.

Há os que defendem a existência de um bípede de cerca de 3 metros de altura. Tais relatos são muito antigos e em sua maioria são das tribos da América do Norte, chamam-no de “Sasquatch”, que vem de “Sásq’ets,” cujo significado é…

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…homem selvagem. Foi em meados dos anos de 1950 que o mito teve a maior repercussão, encontraram em Bluff Creek, Califórnia, uma pegada. Curiosamente, a partir de então, quase 5000 pessoas relataram ter avistado o animal. Houve diversos experimentos tentando comprovar a existência do Pé-grande. Em 2012, Melba Ketchum, veterinária norte-americana, apresentou amostras de DNA tentando comprovar a existência do Pé- grande, ou aquilo que ela acreditava ser um híbrido entre “Homo sapiens” e um primata desconhecido.

Vale ressaltar que entre relatos e a comprovação científica existe uma ampla diferença. A começar que todos os cientistas envolvidos são desacreditados, esmo porque ninguém jamais encontrou ossos, pelos ou qualquer material biológico que comprovasse o Pé-grande. Aliás, os pesquisadores da Oxford, em 2014, verificaram as supostas amostras do Pé-grande disponível em museus e coleções particulares e concluíram que vinham de animais como urso, lobo, veado e até seres humanos.

É curioso como, ao contar sobre uma espécie maior, as pessoas de certa forma revelam mais delas do que do objeto imaginado ou suposto. O Pé-grande habita cada um que gostaria de se colocar no mundo como um “ser” diferenciado, muitas vezes maior e melhor do que os outros. Essa fantasia habita o sujeito desde sua tenra idade.

É no embate com a figura paterna e no encontro com o sexo que o sujeito pode ansiar ser aquele que porta algo de muito valor. Esse valor é designado como “falo” em Psicanálise, que não tem a ver com o órgão genital masculino, embora guarde uma aproximação metafórica, ou seja, marca a presença do “órgão sexual preponderante” no caso do homem e sua ausência, no caso da mulher. Quem não o tem, no caso a mulher, reivindica-o e quem em tese o tem receia perdê-lo.

O homem, para manter a suposição de ter algo de valor, pode atravessar sua vida pensando em muitas estratégias para negar que ele não pode tudo. Em via de regra, a forma de defesa ocorre a partir dos inúmeros pensamentos, da dificuldade em agir frente aos seus desejos e uma árdua instância psíquica que submete o sujeito em um imperativo, fazendo perambular entre os extremos de ser o maior e de não se ver capaz de nada. Alguns vivem relações fálicas, na relação de disputa com o outro medindo quem tem o maior pé, mas não é só o Pé-grande que impõe medo, é perceber-se como alguém pequeno e impotente diante do outro.

A animação Pé-pequeno (2018, direção de Karey Kirkpatrick) traz uma subversão do termo ao mostrar um conjunto de Pé-grandes que formam uma sociedade para se proteger dos humanos, chamados Pé-pequenos. Para sustentarem-se nesse lugar, o líder dita as versões da verdade, que são explicadas pelas pedras da sabedoria. Um genial Yeti (Pé-grande) tem um rápido contato com um humano, que por acidente de avião havia caído nas terras dos Yetis. Será a curiosidade e a vontade de saber sobre a existência dos humanos que fará o personagem principal aventurar-se em sair de suas terras. No espaço dos homens, um acaso coloca-o diante de um biólogo-repórter que se encontra em desespero porque a audiência de seu programa está baixa. Disposto a fazer qualquer negócio para ver os índices de audiência aumentarem, o humano tem a ideia de vestir sua assistente de Pé-grande e é nesse momento que o simpático Yeti aproxima-se.

Irão conviver e estabelecer um laço para além das dificuldades de se comunicarem.

Entre outras questões abordadas no filme, a principal é certamente ligada à potência. Em melhores palavras, ao quanto a alienação à ideia de querer ser alguém reconhecido por ser grande pode ser limitador. Querer sustentar a radicalidade de um extremo é deparar-se com o inevitável da perda, experiência da qual nenhum escapa.

Estabelecer relações e projetos via rivalidade fálica pode ser sofrido e impor dificuldades em transitar ao longo da vida. A Psicanálise propõe uma relação para além desse ideal de ser um máximo, coloca o sujeito frente ao seu limite e, ao mesmo tempo, as suas possibilidades de se lançar na vida.

Se jogar ao inusitado de quem não tem nada pronto pode ser um belo convite à invenção.

Tags: Opinião

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