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Festival Música do Mundo

setembro 8th, 2010 · 6 Comentários

 Este texto foi escrito pelo psicólogo Lelo de Brito por ocasião da edição 2009 do Festival. A edição deste ano começa hoje (!).

O Festival Música do Mundo maravilhou Três Pontas-MG. Foi um acontecimento sanitário. Dizem os caretas que não se deve jogar pérolas aos porcos, por que faz mal a eles (os caretas). Nas semanas que antecederam o Festival, Três Pontas padecia de gripe suína – a última manifestação física e maligna da má consciência coletiva. Não seria devaneio acreditar que o foco epidêmico na terra de Bituca tenha sido uma premonição, uma febre anunciadora das energias de exaltação da vida que co-moveriam a cidade por ocasião do Festival. Algo como a explosão de coágulos de pus durante a desintoxicação da carne. Quando “mundo” e “lugar” se encontram em celebração é como o coito dos amantes: a terra treme e a vida passa com a força resfolegante dos trens. Intenso como a cultura criada pela primeira diáspora latino americana, nos idos de 1940, surgida entre os mexicanos “exportados” para trabalhar nas plantações de tomate da Califórnia – E.U.A. Também naquela década, o fim da 2º Guerra Mundial deixou o ocidente em luto profundo. A juventude (eles, os que deveriam lutar as guerras) começava a colocar em xeque os valores da cultura protestante embutidos nas sociedades industriais. Afinal, o trabalho rigoroso em troca da diversão aos finais de semana (weekends) não vinha fazendo do mundo um lugar melhor. E nos E.U.A, bastava olhar as condições dos latinos das plantações de tomate para ver. Chamados de “pachucos”, eles não participavam da sociedade americana, eram discriminados e viviam em comunidades isoladas nas periferias das cidades, como as favelas ou quilombos. Mas se divertiam. Cantavam, dançavam, bebiam e faziam amor freneticamente, todas as noites. Vestiam roupas coloridas e espalhafatosas e estavam sempre descabelados. Nos anos 60, a guerra do Vietnã traz imaginações orientais para o seio do ocidente e a civilização americana pedia novamente aos jovens que matassem e morressem agora por um futuro melhor. Em resposta, os universitários californianos de Berkley, puxando a fila do desbunde, se aproximam dos pachucos e rendem suas vidas àquela cultura desvairada, provocando outras guerras mundiais nas mesas de jantar sessentistas. No Brasil, em Três Pontas-MG, um garoto negro de olhos mansos, sozinho, sentado na varanda, toca sanfona e gaita ao mesmo tempo, enternecendo a tarde. Ele foi o último a tocar na grande noite do Festival. Quando Milton Nascimento soltou a voz, o público sentiu na pele a imensidão das Minas Gerais, e muitos choraram de alegria. Todos os carinhos e encantos da natureza e da cultura mineira encontram expressão no espaço mavioso da voz de Bituca. Quem esteve no Festival, mesmo os mais distraídos, participou da concretização de um sonho coletivo de paz, amor, saúde e amizade no regaço deste mundo de conflitos sangrentos e pasmaceira tediosa, de amores sem entrega. Tom Zé, Lenine, Lô Borges, Ivan Lins, Bituca, Toninho Horta, Márcio Borges e toda a trupe que tocou em Três Pontas cantaram que o mundo todo é nosso lugar, e que viver é aqui e agora, entre nós, “Encontros e Despedidas”. Voltamos de Três Pontas descabelados, fedidos, sujos e felizes.

Tags: Cultura

6 Respostas Até Agora ↓

  • 1 Luna // set 9, 2010 at 9:57 PM

    Concorco com vc Mônica, mas é melhor nem considerar o papo do tal do vóvó.Três Pontas (alguns trespontanos) tem muito disso, o próprio Bituca que o diga. Lembra da história de que ele não pode entrar no clube dos “ricos”,por ser negro? Verdade, leia “Os sonhos não envelhecem” (Marcio Borges).

  • 2 monica // set 9, 2010 at 4:36 PM

    Tem um imbecil radialista de 3 Pontas que vive detonando Varginha. Outro dia ouvi ele dizer que Varginha só leva porcaria para lá. No entanto, quando de um envento grandioso como esse ou qualquer exposição, usam os meios de comunicação , os hotéis etc… daqui para fazer propaganda. O tal radialista atendende pelo singelo nome de ”vóvó”. Sem querer desmerecer o povo vizinho, mas voces dependem muuuuito de Varginha ok??

  • 3 Vedadeiro // set 9, 2010 at 11:10 AM

    Que texto maravilhoso, parabens ao Lelo Brito.

    Pena que acabou festival, acabou a guerra do Vietnã, e os imigrantes mexicanos assim como apanhadores de café continuam no julgo de uma minoria exploradora, e infelizmente nem Woodstock e nem o música do mundo acabou com isso.

  • 4 Trem Doido // set 9, 2010 at 10:58 AM

    é realmente de arrepiar

  • 5 flavia // set 9, 2010 at 8:33 AM

    Você conseguiu retratar nosso sentimento. Foi isso mesmo!

  • 6 Fire Fox // set 8, 2010 at 11:28 PM

    Nosso Lar

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