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Tiro e queda – Braz Chediak

novembro 17th, 2008 · 4 Comentários

Antigamente havia, nas salas dos católicos, um pequeno altar
onde as famílias se reuniam e faziam suas orações. Claro, eram quase sempre
orações para pedir alguma coisa já que, como bons brasileiros, não nos
importamos muito em agradecer (clique no título para ler o artigo completo).

 
          Com o passar do tempo o altar deu lugar à TV, deixamos as orações
para mais tarde ou, o mais constante, para quando precisamos de algum favor.
Como dizia meu velho pai, “O mundo tá mudado!”.
          É, o mundo, pois não foi só o altar que mudou mas também a posição
de alguns santos na seleção do imaginário coletivo. Antigamente Santo
Antonio estava em todas as seleções. Era o mais invocado pelos fiéis e,
principalmente, pelas fiéis de todas as idades. Coisa natural, já que
vivíamos numa época em que o casamento era a aspiração máxima de todas as
mulheres e para as que não o conseguiam, ou não o desejavam, criaram até um
palavrão: “solteirona”. E olha que a mulher tinha que se casar jovem, com,
no máximo, 20 anos. Com trinta já era passada, era “balzaquiana”.
          Como ninguém sabia o que era pedofilia as preferidas de quase
todos os homens eram os “brotinhos”, como eram chamadas as adolescentes de
então. Que o diga Chico Carlos, que até o fim de sua carreira ficou marcado
pela gravação carnavalesca de…
“Ai, ai, brotinho/não cresça meu brotinho, nem murche como a flor./ai, ai
brotinho/eu sou um galho velho/mas quero seu amor.”
          Mas havia também os que faziam contraponto e criaram a expressão
balzaquiana (clara referência ao personagem de Balzac) e diziam preferir
mulheres mais velhas, “mais experientes”(?) e também abriam o peito no
carnaval:
          “Não quero broto/não quero, não quero não/não sou garoto pra viver
nessa ilusão/sete dias na semana/eu prefiro ver minha balzaquiana!
          Mas como gosto não se discute, voltemos aos santos
– cuja
preferência também não se discute.
          Hoje, com o crédito fácil (e pagamento difícil), Santo Antonio
perdeu a posição para Santa Edwiges, a padroeira dos endividados e para
Santo Expedito, padroeiro dos aflitos e desesperados, principalmente os
aflitos e desesperados com as prestações, o empréstimo bancário, a conta na
farmácia, na padaria, no açougue, no supermercado, etc., etc.
          Há também os santos nossos padroeiros por escolha (nossa ou de
nossos pais) a quem recorremos com freqüência. O meu é São Benedito
– que
foi escravo em Messina e, por ser preto era chamado O Mouro
–. Ele é um
tremendo boa praça que tem me valido diversas vezes sem nunca reclamar. “Meu
São Benedito/é santo de preto/ele bebe cachaça/ele ronca no peito”. É santo
do povo, que bebe a bebida do povo e ronca no peito as canções do povo. E
como, felizmente, somos um povo mestiço e herdamos o ritmo, a melodia, a
poesia dos negros, somos alegres, festeiros, felizes. Tão felizes que já
nascemos pensando em prazeres e confessamos isto com a maior cara de pau:

“Quando nasci dei um grito:
Ai meu Deus! Jesus me mata,
Que eu quero ser enterrado
No colo de uma mulata!

           O colo de uma mulata, quer lugar melhor para passar a eternidade?
Mas voltemos ao assunto. Recentemente ganhamos alguns santos que, por
relatos dos fiéis, têm feito grandes e importantes milagres. E estamos
torcendo por Nhá Chica, santa da devoção do meu pai e com quem converso
freqüentemente.
          A seleção de santos é imensa, devemos a todos por graças
alcançadas ou, simplesmente, por nos terem dado exemplos de vida. Rezo por
eles, mas por via das dúvidas, sigo o conselho de um amigo:
           – Braz, esses santos famosos andam cheio de pedidos e não tem
tempo de atender todo mundo. Arruma um santinho que ninguém conhece e reza
pra ele. Como ele tá desocupado vai te atender no ato. É tiro e queda.

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4 Respostas Até Agora ↓

  • 1 Laura A. Nascimento // jan 23, 2009 at 9:19 PM

    Seguindo o conselho do cronista, procuro nas folhinhas e nos almaques os santinhos mais esquecidos. Tem dado certo. Mas nunca esqueço de meus santos protetores inciais.
    Muito senso de humor no cronista, numa crônica ótima.

  • 2 Tatiana Araujo // dez 21, 2008 at 6:39 AM

    Excelente!!! Só um parênteses: O número de Santos (soluções imediatistas e discompensadas) é diretamente proporcional ao número de problemas (interesseiros oportunistas) da vida. É cômico, se não fosse trágico!!! A fé, o instrumento mais poderoso herdado pelo homem, utilizada como a mais pobre de suas ferramentas.
    Num jogo de interesses alienado por escolhas egoístas e mesquinhas, o progresso de evolução do homem é inversamente proporcional ao grau de sua maturidade existencial.
    E um viva à mediocre hipocresia religiosa que insiste em conduzir a vontade do próprio Deus!!!

    Beijos a todos.

  • 3 Helen Oliveira // dez 12, 2008 at 6:04 PM

    Que bom que você está bem protegida, Maria.
    Eu também tenho muitos santos.
    Mas que a crônica é ótima, ah, isto é.
    Helen Oliveira

  • 4 Maria G. M. // nov 17, 2008 at 1:15 PM

    Acho que sou antiga, caro Braz. Daqui onde estou miro São José, Santa Rita, São Lucas, São Francisco, São Judas, São Francisco, São João, Santo Antônio, Santa Efigênia e, lá na cozinha, por devoção e por tradição, São Benedito.
    Algumas imagens ganhas, algumas imagens compradas, mas a vontade imensa cultivada por muito tempo de tê-los aqui onde estão, em local de destaque em minha sala.
    Santo Antônio ganha disparado na hora das aflições, na hora de encontrar algo perdido e também porque é o santo de devoção de minha mãe. Ela sim, ora por ele e para ele, pedindo sua interceção todos os dias.
    Assim penso que vale a estratégia do santo desocupado, mas por aqui, aproveito o crédito que minha mãe ajuntou durante tantos anos, mesmo quando eu estou em falta com ele.
    Desocupado ou dono de créditos dos fiéis, o que não pode faltar é a fé. Abraços.

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