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Lanchando com os índios – Braz Chediak

novembro 6th, 2008 · 2 Comentários

Esta semana, sentindo que os alunos do Projeto Pedalarte estavam agitados por causa de um temporal que se aproximava, resolvi mudar o rumo das aulas e contar a eles um pouco da minha vida, da vida de um artista brasileiro quando jovem (clique no título para ler a notícia).

Comecei passando um filme de Cangaço, da década de 60, que conta a história de Virgulino Ferreira, o Lampião, sua entrada para a marginalidade, o encontro com Maria Bonita, o nascimento da filha, etc., etc., até sua morte numa emboscada quando teve a cabeça cortada e exibida como troféu.

Disse aos pequenos alunos que eu tinha estado no lugar onde se deu o fato, percorrido aquelas terras para estudar, que vira a cabeça de Virgulino, da Maria Bonita e de todo o bando num museu, e senti que eles se entusiasmaram. Pouco a pouco esqueceram a chuva e me encheram de perguntas sobre cinema, viagens, etc. etc.

Eu lia em seus olhos o fascínio, a vontade de novas descobertas, e a história que mais agradou foi a de minha ida ao Xingu, para assistir a um Quarup e à posse do Chefe Aritana – hoje famoso por seus movimentos em favor dos índios e que, vira e mexe, está na grande mídia.

Aritana é filho de Kanato, que se tornou personagem de Antônio Callado, de José Mauro Vasconcelos e de outros que escreveram sobre nossos índios.

Mas vamos à história:

Os chefes de todas as aldeias indígenas da região estavam reunidos na aldeia dos Camaiurás para a celebração do Quarup. Desde o amanhecer os guerreiros se preparavam, pintando seus corpos com urucum e carvão, o que dava a eles aquele belo colorido vermelho-negro. Nos cabelos, passavam uma pasta estranha da qual, infelizmente, não anotei o nome ou de que era feita.
Colares e cocares de grande beleza enfeitavam os chefes. E no centro das homenagens, um deles, com uma fita de couro de onça ao redor da cabeça, permanecia quieto, altaneiro, orgulhoso. Era o Grande Chefe.

Eu estava em companhia de Orlando Vilas-Bôas, filmando a festa. Como diretor, orientava aos câmeras, aos eletricistas, etc. Tinha que filmar muito, pois sabia que tudo aconteceria de repente e que não poderia ensaiar nem repetir a mesma tomada. Mas fui interrompido quando o Grande Chefe, o Chefe dos Chefes, me mandou um sanduíche de biju com peixe moído. Agradeci ao portador e, apesar da fome, ia deixar o sanduíche de lado, mas Orlando me falou:

– Come, é uma homenagem a você por ser o chefe da equipe.

Guardei a câmera, tirei do bolso um pouco de sal (os índios não comem sal nem açúcar, por isto tinha levado o sal do Rio), coloquei no sanduíche e comi. Comi lentamente, saboreando, degustando, enquanto Orlando me olhava em silêncio.

Terminada a refeição, cumprimentei o Grande Chefe que me presenteara com a iguaria e voltei ao trabalho, feliz pela homenagem, feliz por ter comido.
Quando anoiteceu e estava voltando para nosso acampamento, Orlando Vilas Boas deu uma grande gargalhada e disse:

– Braz, esta foi a maior homenagem que você já recebeu em sua vida.
– Que bom!,
respondi – Fico contente!
E Orlando continuou com aquele seu jeito de gigante e de menino:


– Eu não te contei na hora, senão você não ia comer. E isso seria uma grande
ofensa. O Chefe mastigou o peixe, pra te poupar esse trabalho, misturou-o com saliva para facilitar a digestão, cuspiu no biju e te ofertou. Este gesto é uma demonstração de respeito e de estima.

Meu estômago embrulhou. Tive vontade de xingar nosso grande sertanista.
Ora, isso é coisa que se faça com um pobre diretor mineiro e bobo? – Mas sua companhia, e o gesto do Grande Chefe, me orgulhavam tanto que me limitei a um sorriso amarelo e a uma jura, em silêncio, que nunca mais comeria nenhum presente de índio.

Tags: Colaboradores · Cultura

2 Respostas Até Agora ↓

  • 1 Braz Chediak // dez 25, 2008 at 5:22 AM

    Grato a todos e um ótimo 2009

  • 2 Leonardo Tavares // nov 12, 2008 at 1:35 AM

    Quanta vivência tem o Sr. Braz Chediak. Suas crônicas, além de bem humoradas, é uma lição de vida para todos. Parabéns.

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