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As sobrancelhas travessas de Zandra

outubro 14th, 2008 · Sem comentários

Clique no título para ler a crônica de Braz Chediak.

Em suas conferências na Universidade de Harvard, Ítalo Calvino diz que a “leveza” está associada à precisão, à exatidão e à determinação, nunca ao que é vago, ao aleatório e, citando Paul Valéry, afirma que “é preciso ser leve como o pássaro, e não como a pluma”.

Sim, ao contrário da pluma que segue o vento, precisa do vento e não tem direção, o pássaro tem vida própria, sabe o rumo que toma. Esta é a leveza do artista criador, que brota no próprio ato de criar, seja um livro, um quadro, uma escultura, já com o caminho traçado. Este caminho é o planejamento, a sensibilidade, a percepção, “um sentir, como propõe Octávio Paz, que se localiza entre a sensação e o pensamento, entre o sentimento e a idéia.”

Mas por que falar da “leveza” nesta manhã de domingo já, por si mesma, tão leve? Explico: ultimamente tenho observado que o Brasil está tomando consciência de que seus filhos, ou amigos mais ilustres devem ser homenageados e, principalmente, lembrados para sempre. Diversas estátuas têm sido feitas com este propósito. Quem nunca viu, pelo menos na imprensa, a estátua de Drummond, sentado meditativo num banco da praia de Copacabana? Quem nunca viu a estátua de Noel que integra a paisagem de sua Vila Isabel tão querida ou ouviu falar do busto de Caymmi que brevemente será inaugurado no Rio de Janeiro?

E nas pequenas cidades? Bem, aí a coisa se complica. Normalmente, nossos poetas, atletas, personagens ilustres, etc., etc., são esquecidos tão rápido quanto o vôo da pluma. E, quando são homenageados, suas estátuas ou bustos parecem pesar sobre o solo, sem expressões humanas, tão imóveis que levam o observador ao cansaço. Talvez por falta de sensibilidade ou de seriedade dos artesões (não artistas) que não se preocupam em estudar seus modelos como pessoas que têm uma alma, uma história, um caráter, uma personalidade.

Falta leveza às nossas homenagens, o que muitas vezes torna um homem expansivo, alegre, num busto severo, carrancudo, sem sentimentos. E aqui abro um parêntese para lembrar que o absurdo é tanto que muitos personagens de nossa história, mesmo tendo passado meses ou anos no cárcere, sofrendo fome, quase cadavéricos, são retratados como figuras musculosas, garbosas, apolíneas, pois era praxe retratar os heróis como sendo fortes, garbosos e apolíneos.

Fecho o parênteses e continuo, lembrando que os artistas verdadeiros, aqueles que se preocupam mais com o ser humano que com as regras, produziram – e produzem – figuras de leveza, verdadeiros  retratos de ternura, de afeto, amizade e admiração por seus homenageados.

Esta a impressão que tive ao ver o busto de Mr. Corbin, na entrada da Total Alimentos, criado pela Zandra, esta artista tricordiana, brasileira, universal.

Sobre um pedestal que parece apenas tocar a grama, quase a tangenciando, temos uma obra viva, com alma e, mesmo quem não conheceu o homenageado pode imaginá-lo em sua integridade.

Sua expressão é leve. Seu sorriso, verdadeiro. Sua sobrancelha um pouco levantada – que só uma verdadeira artista poderia captar – revela um homem irônico, divertido, brincalhão, humano. Detalhes sutis. E de sutilezas e verdade são feitas as obras de Arte, é feita a vida.

Na homenagem que a Total Alimentos prestou ao pesquisador americano, dia 15 de setembro, senti na obra de Zandra a magia da criação perpetuando a amizade que a família Miranda sente por Mr. Corbin. Por instantes, vi seu olhar maroto, travesso, nos observando. Alegre por estarmos alegres, feliz por estarmos felizes e por ter sido moldado pelas mãos delicadas de uma artista delicada que, mais que o físico, captou-lhe a alma. Sua eterna alma de criança.

Foi isto que vi na obra de Zandra e registro nesta crônica. CARPE DIEM.

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