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Uma sopa de fubá

setembro 15th, 2008 · 1 Comentário

Braz ChediakSemana passada fomos fazer uma apresentação com a Banda Tricordiana, patrocinada pela TOTAL ALIMENTOS, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura e, como a noite estava fria, na volta à casa dei carona para alguns alunos que moram distantes. Clique no título para ler mais.Como já disse em crônicas anteriores, sou atraído pela periferia, pelas ruas descalças, pela gente humilde. Em outras palavras, sou atraído pela minha origem. E essa atração é tão forte que sou capaz de ficar horas observando um simples comigo-ninguém-pode num canto de uma porta velha, imaginando os sonhos de quem o plantou, suas crenças de cercar o azar que trazem aqueles que, como eu, invejam os que têm um lar, uma família, uma casa aconchegante onde descansar o corpo e o espírito.Dante nos disse na DIVINA COMÉDIA que “Nada é mais sublime em nossa vida que recordar os dias vividos na miséria.” Não sei se a frase está correta, mas é isto que sinto. São estes dias vividos na miséria que me vêm agora à memória e ao coração, enquanto, após deixar o último aluno, passo por bairros pobres, observando becos, vielas, vendinhas e botequins onde alguns solitários bebem suas pingas e contam suas histórias. É uma passagem rápida, mas que me toca. No Jardim Esperança, numa casinha de esquina, vejo uma chaminé de onde sai uma fumaça azulada e paro o carro, admirando o jardinzinho bem cuidado, a varanda arrumada com capricho, o quintal limpinho.A porta e as janelas estão fechadas, mas ouço o bater de palmas, um forte bater de palmas, e uma voz feminina chamando: “- A sopa tá na mesa, vamos logo senão esfria…”, o que me fez recordar de minha mãe e a sopa de fubá que ela, todas as tardes,  fazia para nosso jantar. Tenho falado muito, ultimamente, da “memória afetiva” que me persegue por todos os lugares em que ando. Nela carrego Veneza e a Rua da Cotia, Barcelona e o Cinturão Verde com o mesmo sentimento. Nela carrego a Monalisa, de Leonardo, e a pintura de Pedro Zógbi, de nossa Matriz, com a mesma veneração. Nela carrego os banquetes com personalidades de fraques e o mingau de fubá cheirando a alho refogado com a mesma água na boca. Abro um parêntese para dizer que a diferença é que, mais que o banquete, o mingau transcende o prazer, me leva à ternura e ao amor que, ao mesmo tempo aquecia nossos corpos, tão precisados de calor, e nossa alma ainda em formação. O amor materno que nos aproximava como se aproximam os filhotes dos animais em suas tocas para se aquecerem mutuamente. Fecho o parêntese e continuo a viagem. Sei que em Três Corações, como em todas as cidades do terceiro mundo, a vida é severa. Sei que há revoltas, ódios, assaltos, agressões, assassinatos, etc., etc. Mesmo assim dirijo devagar, olhando as ruas distantes que, com suas luzes piscando fracamente, me recordam um cemitério de filme com suas alamedas encobertas por neblina. Dia das mães, não fui ao cemitério real visitar o túmulo da minha, mas sinto um impulso de ir à Estação Ferroviária onde meu pai trabalhou por muitos anos e ela teve seu botequim. Não existem mais os trens, a Praça está deserta e fico sozinho, pensando nos sons, nas cores, nos cheiros que senti, ainda adolescente, quando morava ali. Mas não quero voltar ao passado. Não quero fugir da vida, mas caminhar com ela, sentir sua renovação. Não quero homenagear aos mortos, mas àqueles que estão vivos dentro de mim, como agora está minha mãe, ainda que seja num apito imaginário ou na visão da velha  locomotiva que agora é um monumento aos ferroviários de nossa terra. Tem uma frase ZEN que diz “Todos conhecemos o som de duas mãos que aplaudem. Mas qual será o som de uma só mão que aplaude?” Passei muito tempo procurando este som, mas agora, relembrando a voz e as palmas da mulher naquela casinha limpa e singela do Jardim Esperança sinto que foi ele, o profundo som cósmico de uma só mão que aplaude, que ouvi, ouço e ouvirei para sempre, me chamando para o alimento do corpo e do espírito. Talvez o que nossa mãe nos dizia é que “A sopa está na mesa, venham logo senão esfria!”, sem perceber que o calor que nos transmitia era maior que o prato, que a mesa, que a casa. Era o calor da vida.

Tags: Colaboradores · Cultura

1 Resposta Até Agora ↓

  • 1 Jocelmo // out 4, 2009 at 9:22 PM

    Ter sensibilidade e fazer emergir a memória afetiva não é para todo mundo. Parabéns! Sentir o mundo através de memórias outras seria tarefa de todos para a consecução do entendimento pleno do humano e de suas razões de ser. Parabéns pelo belo texto e por apresentar a importância que se deve dar às coisas que valem a pena nesta vida tão efêmera.

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