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Zé Mindinho – Braz Chediak

agosto 4th, 2008 · Sem comentários

Ontem, atravessando a Praça, encontrei o Zé Mindinho que, segurando um
enorme guarda-chuva, devorava um saquinho de pipocas e cuspia no chão os
piruás. Ao me ver, abanou a mão como um ator canastrão e gritou: “E essa
chuva que não pára?”.

Clique no título para ler o texto completo.

– Está danada. Está danada! – concordei rapidamente, tentei me desviar mas
ele me segurou o braço e disparou um monte de impropérios contra o tempo e a
cidade. Falava de boca cheia, gesticulando e, de vez em quando, olhava para
os lados, com os cantos dos olhos, procurando algum provável ouvinte. Aqui
abro um parêntese para dizer que numa noite sem chuva logo, logo se formaria
uma rodinha para ouvi-lo e fazer coro com sua cantilena, mas com o tempo
ruim ninguém se aventura a sair de casa.

Fecho o parêntese e informo que terminada a tarefa de comer, Zé Mindinho
amassou o saquinho com a mão e atirou-o no meio da rua. Pouco depois, como
bom brasileiro, começou a esculhambar o presidente, o governador, o prefeito
e, para provar que tinha razão em sua ira, apontou-me para o papel branco,
agora todo molhado, e esbravejou:

– Olha só. A cidade está um lixo. Um lixo.

Pensei em lembrar-lhe que ele é quem havia jogado o saquinho no chão e que,
pelo contrário, a rua estava brilhando de tão lavada pela chuva, mas achei
melhor me calar. Dei uma desculpa qualquer, consegui me livrar de sua mão,
que ainda me segurava o braço, e me afastei.

Não havia chegado à esquina, ainda com a voz do Zé Mindinho nos ouvidos,
quando me lembrei da frase de José do Patrocínio, negro guerreiro e
patriota, chamado “O Tigre da Abolição”, num de seus comícios contra a
escravatura: “Deus deu-me alma de Otelo para ter ciúmes de minha pátria”.

Pode ser uma frase bombástica, de efeito, mas demonstra bem o sentimento dos
brasileiros daquele tempo por sua pátria. Era um amor integral, vinte e
quatro hora por dia, que se manifestava diante de uma causa, uma paisagem ou
simplesmente por terem nascido num País gigantesco e belo.

Hoje – pensei -, em tempos globalizados, somos brasileiros apenas durante a
Copa do Mundo. Mesmo assim com restrição, já que também somos técnicos e a
seleção escalada nunca coincide com a nossa.

– E por que essa atitude? – Perguntarão meus três ou quatro leitores.

A resposta é simples: porque precisamos de provocação. O Brasil é invejado
lá fora. Asiáticos, africanos, europeus e americanos babam diante de nosso
país/continente, de suas riquezas naturais, principalmente de sua abundância
de água. E nós não estamos nem aí para isto. Somos, apenas, Otelos de nós
mesmo, eis a questão. Só sentimos ciúmes, ou raiva, de nós mesmo. E, como
disse no início deste parágrafo, precisamos de provocação. Para provar isto,
voltemos uma semana no tempo e vejamos nossa reação quando os espanhóis
trataram alguns brasileiros como cachorros, simplesmente por serem
brasileiros. A notícia mal acabou de chegar aqui e nos unimos num coro de
protestos. Abro outro parêntese para dizer que houve um brasileiro que
tentou minimizar o fato: Pelé.

Sem entender a posição do craque, fecho o parêntese e continuo. Sempre
recebemos todos os povos com alegria. Abraçamos os espanhóis como abraçamos
um ente querido, mesmo sabendo que muito deles vieram para cá para abrir
motéis, explorar a prostituição, etc., etc. Mesmo sabendo que eles agora
dominam a telefonia, têm o 3º maior banco em nosso país, o Santander, e que
estão levando nosso dinheiro – de maneira oficial – da mesma maneira que os
piratas levaram nosso ouro. Ainda assim, nos encantamos com sua dança, com
sua música, com seu cinema, etc., etc. Os admiramos e respeitamos. Isto é,
até sermos tratados por eles como cachorros. Então nos revoltamos. Eis aí
uma amostra de nosso temperamento: Nos revoltamos contra a ingrata Espanha,
mas entre nós, de brasileiro para brasileiro, nos maldizemos.

Tolstoi dizia que quem quiser ser universal, fale de sua aldeia. É assim com
a literatura, é assim com os sentimentos. Por isto Zé Mindinho fala mal de
nossa cidade. Ele sabe que ela está bem, que temos um sistema de saúde
pública excelente, nossas crianças estão agasalhadas, recebendo pão e ensino
nos Projetos criados pelo atual Prefeito, nossos bairros mais pobres recebem
um tratamento digno, com suas ruas sendo asfaltadas, escolas funcionando,
etc., etc. Três Corações se universalizou, é uma cidade com característica
do primeiro mundo, e por isto falamos mal dela.

Ah, como compreendo meu amigo Zé Mindinho. Este é um ano eleitoral e é
preciso destruir os feitos alheios, principalmente os bons feitos alheios.
Afinal, precisamos viver. E para quem não constrói nada, viver é destruir.
Mesmo que seja com palavras. E como são destruidoras as palavras.

Tags: Cultura

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